A cantora e compositora paulistana Regina Machado dedica seu quarto CD a obra de um único autor. O álbum Mutiplicar-se Única – Canções de Tom Zé [selo Canto Discos/Tratore], arranjado e produzido por Dante Ozzetti, além de homenagear um grande nome da nossa música, faz uma volta no tempo, já que Regina começou a cantar na banda que acompanhava Tom Zé nos anos 1980.

O repertório, selecionado em parceira com Silvia Ferreira, foi uma das partes mais difíceis do trabalho, pois, segundo Regina, Tom Zé nesses 50 anos de carreira, tem demonstrado criatividade fora dos padrões, produzindo canções e sempre se reinventando. Há desde canções recentes como João nos tribunais (2008), homenagem a João Gilberto, passando por Mutiplicar-se única, dos anos 1990, até o clássico Augusta, Angélica e Consolação (1973), crônica sobre São Paulo que tem participação de Suzana Salles e Wandi Doratiotto, expoentes da vanguarda paulista e na qual Tom Zé dialoga, de certa maneira, com compositores como Adoniran e Vanzolini.

A história de Regina e Tom Zé é curiosa. No começo dos anos 1980, ela, ainda adolescente, foi chamada para fazer vocais na banda dele. Topou sem saber no que ia dar, guiada mais pela novidade em si. Foi e gostou, como diz: “Aquele universo musical me surpreendeu. Era interessante pois não era só música, tinha a performance. Ele falava de coisas como filosofia oriental,  semiótica, literatura. Eu, garota, nem tinha condições de absorver tudo aquilo, mas, algo naquela experiência, me mostrou que era um caminho que eu queria seguir”.

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REGINA
MACHADO

Tom Zé

Lua uva, lua nova, lua noiva, ô luar!

Lua seda me arpeja,
Me palmeja, ô luar!

Ô gira-sol, gira luar
Gira, gira, gira-sol, gira luar
girou.

Voz | Regina Machado
Violão e guitarra | Dante Ozzetti
Contrabaixo | Zé Alexandre Carvalho
Bateria e gongos melódicos | Sérgio Reze
Arranjo | Dante Ozzetti

1. LUA GIRA-SOL

 

Tom Zé

Toda a canção quer se multiplicar
na multidão única se tornar.

Simples prazer de ressoar 

no ar o som da voz.
Canta por nós: 

cordas vocais sem cais, 

cordas ou nós.
 

Voz | Regina Machado
Guitarras | Norberto Vinhas
Programação e percussão | Guilherme Kastrup
Arranjo | Dante Ozzetti e Regina Machado

2. MULTIPLICAR-SE ÚNICA

Tom Zé

O amor é velho, velho, velho
E menina.
O amor é trilha de lençóis e culpa,
Medo e maravilha.

O tempo, a vida-lida
Andam pelo chão,
O amor aeroplanos
O amor zomba dos anos,
O amor anda nos tangos,
No rastro dos ciganos,
No vão dos oceanos.

 

O amor é poço onde se despejam
Lixo e brilhantes:
Orações, sacrifícios, traições.

Voz | Regina Machado
Violão e guitarra | Dante Ozzetti
Contrabaixo | Zé Alexandre Carvalho
Programação e percussão | Guilherme Kastrup
Arranjo | Dante Ozzetti

3. O AMOR É VELHO-MENINA

 

- Bença, mãe.
- Deus lhe faça feliz, minha Menina Jesus
e te leve pra casa em paz.

Eu fico aqui carregando o peso da minha cruz
no meio dos automóveis, mas vai viajar, foge daqui
que a felicidade vai atacar pela televisão

E vai felicitar, felicitar, felicitar, felicitar,
felicitar até ninguém mais respirar.

Acode, minha Menina Jesus,
minha Menina Jesus,
minha Menina Jesus, acode!

Voz | Regina Machado
Violão | Dante Ozzetti
Clarinete | Maria Beraldo Bastos
Programação | Guilherme Kastrup
Arranjo | Dante Ozzetti

4. MENINA JESUS

Tom Zé

Valei-me, minha Menina Jesus,
minha Menina Jesus,
minha Menina Jesus, valei-me!

Só volto lá a passeio no gozo do meu recreio,
Só volto lá quando puder comprar um óculos escuros.

Com um relógio de pulso que marque hora e segundo,
Um rádio de pilha novo cantando coisas do mundo - pra tocar.
Lá nos jardins da cidade, zombando dos acanhados,
Dando inveja nos barbados e suspiro nas mocinhas...
Porque pra plantar feijão eu não volto mais pra lá.
Eu quero é ser Cinderela, cantar na televisão...

Botar filho no colégio, dar picolé na merenda,
Viver bem civilizado, pagar imposto de renda,

Ser eleitor registrado, ter geladeira e tv,
Carteira do ministério, ter CIC, ter RG...

 

Tom Zé

Todo compositor brasileiro é um complexado.

Por que então esta mania danada, esta preocupação
de falar tão sério, de parecer tão sério

de ser tão sério, de sorrir tão sério

de chorar tão sério, de brincar tão sério
de amar tão sério?

Ai, meu Deus do céu, vai ser sério assim no inferno!

Por que então esta metáfora-coringa chamada "válida"
que não lhe sai da boca como se algum pesadelo
estivesse ameaçando os nossos compassos
com cadeiras de roda?

E por que então esta vontade de parecer herói ou professor universitário
- aquela tal classe - que, ou passa a aprender com os alunos -

quer dizer, com a rua -ou não vai sobreviver?

Porque a cobra já começou a comer a si mesma pela cauda,
sendo ao mesmo tempo a fome e a comida.

Voz | Regina Machado
Violão | Dante Ozzetti
Guitarra | Norberto Vinhas
Baixo | Du Moreira
Bateria e programação | Guilherme Kastrup
Arranjo | Dante Ozzetti

5. COMPLEXO DE ÉPICO

 

Tom Zé

 

Augusta - graças a Deus! -, entre você e a Angélica
eu encontrei a Consolação que veio olhar por mim
E me deu a mão.


Augusta - que saudade! -,

Você era tão vaidosa - que saudade! -
E gastava o meu dinheiro - que saudade! -
Com roupas importadas - que saudade! -
E outras bobagens.


Angélica - que maldade! -, 
Você sempre me deu bolo - que maldade! -
E até andava com a roupa - que maldade! -
Cheirando a consultório médico - que maldade! -, Angélica.

 

Quando vi que o Largo dos Aflitos não era bastante largo
pra caber minha aflição,
Eu fui morar na Estação da Luz porque estava tudo escuro
dentro do meu coração.

PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS

Suzana Salles e Wandi Doratiotto

 

Voz | Regina Machado

Violão 7 cordas | Gian Correa
Violão tenor | Miltinho de Mori
Cavaquinho | Paulo Henrique Mori
Percussão | Ricardinho DG
Tuba | Marco Delfino
Programação | Guilherme Kastrup
Clarinete | Maria Beraldo Bastos
Arranjo coletivo

6. AUGUSTA, ANGÉLICA E CONSOLAÇÃO

 

Tom Zé

Se João Gilberto tivesse um processo aberto e fosse nos tribunais cobrar direitos autorais por todo o samba-canção que com a sua gravação passou a ser bossa nova, qualquer juiz de toga, de martelo e de pistola, sem um minuto de pausa lhe dava ganho de causa.

"Chega de saudade" - veja o caso deste samba gravado em 58

por Elizeth Cardoso, "pela pátina crestado" Vinícius ficou gamado. O biscoito da Cardoso foi divino, foi gostoso,
mas era um samba-canção lindo e nunca passou disso, não.

Mas quatro meses depois João gravou com a levada a voz no jogo sincopado, o violão todo abusado. O coitado foi chamado de cantor desafinado, sem ritmo, ventríloquo.

Mas, diante do desafinado, o mundo curva-se, desova.
E tudo então louvado foi jogado numa cova.
O sol chocou duzentas ovas e nasceu a Bossa Nova.

O Carnegie Hall foi importante porque pinçou João,

separou João como a grande gema, a grande jóia.

Voz | Regina Machado
Violão | Dante Ozzetti
Contrabaixo | Zé Alexandre Carvalho
Bateria | Sérgio Reze
Flauta | Marta Ozzetti
Fagote | Ronaldo Pacheco
Cello | Adriana Holtz
Saxofone | Vinícius Dorin
MPC | Guilherme Kastrup
Arranjo | Dante Ozzetti
Arranjo incidental citação de Serenata do Adeus (Vinícius de Moraes) por Tom Jobim no disco Canção do Amor Demais (1958)

7. JOÃO NOS TRIBUNAIS

Voz | Regina Machado
Violino | Luiz Amato
Cello | Adriana Holtz
Viola | Fábio Tagliaferri
Contrabaixo | Zé Alexandre Carvalho
Programação e percussão | Guilherme Kastrup
Arranjo | Dante Ozzetti

8. tô

Tom Zé | Elton Medeiros

Tô bem de baixo pra poder subir
Tô bem de cima pra poder cair
Tô dividindo pra poder sobrar
Desperdiçando pra poder faltar
Devagarinho pra poder caber
Bem de leve pra não perdoar
Tô estudando pra saber ignorar
Eu tô aqui comendo para vomitar

 

Eu tô te explicando pra te confundir,
Tô te confundindo pra te esclarecer.
Tô iluminado pra poder cegar
Tô ficando cego pra poder guiar

Suavemente pra poder rasgar
Olho fechado pra te ver melhor
Com alegria pra poder chorar
Desesperado pra ter paciência
Carinhoso pra poder ferir
Lentamente pra não atrasar
Atrás da vida pra poder morrer
Eu tô me despedindo pra poder voltar.

 

Solidão, que poeira leve!
Solidão, olha a casa é sua.
O telefone... 

Solidão, que poeira leve!
Solidão, olha a casa é sua.
E no meu descompasso o riso dela

 

Se ela nascesse rainha,
Se o mundo pudesse aguentar
Os pobres ela pisaria e os ricos iria humilhar.
Milhares de guerras faria pra se deleitar
Por isso eu prefiro cantar sozinho.

 

Solidão, que poeira leve!
Solidão, olha a casa é sua.
O telefone chamou, foi engano.
Solidão, que poeira leve!
Solidão, olha a casa é sua.
E no meu descompasso passo o riso dela.
Solidão.

Tom Zé

Solidão, que poeira leve!
Solidão, olha a casa é sua

O telefone...

Solidão, que poeira leve!

Solidão, olha a casa é sua

E no meu descompasso o riso dela.

 

Na vida quem perde o telhado

Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E, de soluço em soluço, esperar
O sol que sobe na cama
E acende o lençol
Só lhe chamando,
Solicitando.

Voz | Regina Machado
Fagote | Ronaldo Pacheco
Sound Design | Raul Jooken
Edição | Luís Lopes/Dante Ozzetti/Regina Machado
Arranjo | Dante Ozzetti

9. solidão

MULTIPLICAR-SEÚNICA
PORDANTEOZZETTI

"Para aceitar o convite da Regina Machado de produzir o disco sobre as canções do Tom Zé bastou meio segundo. Fã desde sempre do autor, seria a oportunidade de mergulhar nesse universo tão desafiador e ter ao lado uma voz segura e com capacidade impressionante de captar suas sutilezas.

A escolha das músicas partiu sempre da Regina e, uma a uma, fomos trabalhando na pré-produção. A primeira etapa era a de aprofundar no entendimento e na articulação da letra. Para tanto, preferia sempre ouvir a voz crua. Assim íamos gravando e ouvindo o ritmo natural que soava entre o conteúdo original e a interpretação totalmente focada na letra impressa pela Regina - e só a partir desse encontro é que dávamos prosseguimento. As músicas do Tom Zé já são muito bem resolvidas em suas interpretações e no apoio que têm dos músicos com quem trabalha faz tanto tempo. O desafio é imenso quando se tem de evidenciar e valorizar esta obra e, ao mesmo tempo, propor algo que justifique a feitura de um projeto como este, que não seja uma simples releitura ou mera homenagem, mas uma contribuição ao entendimento da mesma, com a assinatura de um projeto artístico.

Tom Zé é cronista do nosso tempo e isso direcionou a segunda etapa do trabalho que foi a de identificar o ambiente proposto na crônica e, a partir dele, construir o arranjo instrumental, num processo inverso ao usual. Isto é, procuramos primeiro dar autonomia e ritmo ao ambiente para depois verificar como isto sugestionaria o arranjo. Neste processo foi fundamental a colaboração do Guilherme Kastrup e do Luís Lopes do Estúdio Flapc4. Músicas como O Amor é Velho-Menina, Menina Jesus, Complexo de Épico e Muntiplicar-se Única foram feitas desta forma. Tô, João nos Tribunais, Augusta, Angélica e Consolação foram pensadas como trilha (ambiente e instrumentação integrados ao desenvolvimento da letra). Já Lua-Gira-Sol e Solidão, mais ligadas ao sentimento e à movimentação do texto."

Dante Ozzetti