Luiz Tatit é um dos letristas mais importantes da atualidade. Comecei a admirar seu trabalho ainda nos anos 1980 quando surgiu o grupo RUMO. Lembro-me dos shows no campus da USP, de toda aquela atmosfera criada pela música que faziam, que era ao mesmo tempo inovadora e ousada, mas também muito conectada com a tradição da canção popular brasileira. Naqueles anos eu estava apenas descobrindo que queria cantar...Tempos depois, em 2005, ele se tornou “objeto” de estudo de minha dissertação de mestrado... 

E hoje é meu orientador no doutorado! 

As canções que escolhi para este cd eu já cantava nos shows e como ambas dialogavam diretamente com aquelas que estavam construindo esse novo repertório, foi natural incluí-las. Especialmente “Os Passionais” sempre me chamou muito a atenção. Melodia e letra falando de um jeito tão atual sobre a coisa mais antiga do mundo: os conflitos, desejos e regressos de uma relação amorosa.

voz | Regina Machado

violão e arranjo | Ítalo Perón

Chico Saraiva | Luiz Tatit

Esse amor imenso que não tem mais fim

Eu não sei quem foi que fez crescer tanto assim.

É tao impreciso, não sei distinguir o que vem só de você do que vem de dentro de mim
Se é a incerteza
Que nos faz bem
Ou o mistério
Que também tem
Se é delírio
Não saber quem é quem

Toda vez que canto
Ouço a sua voz
É o que sempre você diz:
Cada um por nós
Se nada é só de mim
Se nada é só você
Não há mais que um ser

6. INCERTEZA
 
 
 
 
 
 
REGINA
MACHADO
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Ítalo Perón é meu companheiro de jornada musical há exatos 26 anos. Muitas vezes não é necessário falar nada. Uma simples troca de olhares e ele já sabe o que eu quero. Por isso, soube me traduzir tão bem nos arranjos que realizou para este trabalho. Além de ser um grande instrumentista, conhece profundamente a música popular brasileira, é muito talentoso e super de bem com a vida! 

Dividir com ele o palco e o estúdio é sempre divertido e prazeroso, uma experiência de aprendizado constante e amizade profunda. 

Norberto Vinhas, companheiro mais recente de trabalho, responsável pelo arranjo e execução do violão solo em  “Perfeitamente”, se juntou a nós nas demais canções para dar voz ao segundo violão. Talentoso instrumentista que trouxe sua pegada pop para o nosso universo musical, no qual predomina a musica brasileira. Tornou-se uma presença importante na construção desse crossover, dividindo  com Italo os arranjos de “Olhos em Chamas” e “Chão Multicolor”

Brandan Duffey, técnico de som e dono da Norcal Studios, onde gravamos este cd, teve uma participação importantíssima no resultado sonoro que obtivemos aqui. A transparência e delicadeza do nosso som exigiam que o técnico prestasse atenção à detalhes, se envolvesse de fato com as entrelinhas da realização musical. Ele cuidou de cada detalhe com ouvidos atentos a nós e à nossa música, tornando-se o quarto elemento do grupo!   

A escolha das canções para este trabalho se deu passo a passo. Senti que elas se atraiam umas às outras. Teciam uma trama de sentido como se quisessem se expressar independente da minha escolha. 

Elas tinham algo a dizer e se mostravam a mim para que eu fosse o instrumento dessa expressão. 

Então, aqui estou eu, a serviço delas.

Chico Saraiva | Makely Ka

 

Água para molhar a carcaça

Água dá pra apanhar na cabaça

A cabaça apoiar na cabeça

Água pra benzer, água pra lavar

Água tem de buscar na cacimba

Água dá pra ouvir na marimba

E tem água no som da moringa

Água de beber, água de banhar

Água é bom pra aumentar a sopa

E tá dando água na boca

Água limpa pra lavar a roupa

Água vai chover, água vai molhar

Toda água que arde é cachaça

Mas água da chuva é de graça

Olha a água do rio que passa

Água vai ferver, água vai secar

Água foi transportada em caçamba,

Em lombo de burro, na canga

Põe água na cuíca e dá samba

N'água vai nascer Iaraiemanjá

O que há n'água de Iara iê oiá

4. ANÁGUA

voz, vocais e percussão vocal | Regina Machado

violão de 7 cordas e arranjo | Ítalo Perón

violão de aço | Norberto Vinhas

Virada Cultural - São Paulo, 2011

5. AMARRAS

Fábio Barros

 

Tem vez que um pensamento me assalta

E rouba toda minha coragem,

Me amarra num canto da sala,

Recolhe a minha felicidade

E eu ali, naquele estado, 

Dependo da boa vontade de algum outro pensamento que me desamarre,

Me desenterre, desacovarde, sei lá

Se não me calo, se não me entrego me desespero,

Me acovardo, sei lá

voz | Regina Machado

violão de 7 cordas e arranjo | Ítalo Perón

violão de aço | Norberto Vinhas

Fábio Barros é um compositor, instrumentista e cantor da nova geração. Extremamente talentoso. Arrisco dizer que pertence à genealogia musical de Chico Buarque, revela uma alma sensível e masculina, e considerando sua juventude, esse é apenas o começo de muitas belas canções que ainda virão.

“Chão Multicolor”, dele em parceria com Leo Bianchini, é um bolero muito paulistano que me sugeriu invocar algumas das vozes que habitam em mim, além daquela principal com a qual me expresso... Como vocês poderão ouvir... “Amarras”  já estava na minha memória e coração desde que ele me mostrou, anos atrás, quando ainda era meu aluno de canto no Canto do Brasil. Desde a primeira vez que a ouvi, ela me tocou de maneira tão profunda que eu gostaria mesmo de tê-la composto.

Léo Bianchini | Fabio Barros

 

Quem sabe ainda, por acaso, num dia de calor,

De surpresa te pego em casa e tiro o cobertor de pedra?

Usando as chaves da cidade eu tranco as portas marginais e o metrô.

Será a cidade, enfim, de mais ninguém, só de nós dois?

Eu quero a cidade assim, não em milhões, toda pra dois.

 

Carros bagunçados pelas ruas, quase tudo que restou

De resto colado nós dançamos sobre este chão multicolor

Será a cidade, enfim, de mais ninguém, só de nós dois?

Eu quero a cidade assim, não em milhões, toda pra dois.

Sobre este chão multicolor...

voz | Regina Machado

violão de 7 cordas | Ítalo Perón

violão de aço | Norberto Vinhas

arranjo | Ítalo Perón e Norberto Vinhas

7. CHÃO MULTICOLOR

Fred Martins | Francisco Bosco

 

Entra e sai e volta e vem e vai

Surge e some e agora não quer mais

Eu jurei parar, cortar, 

Eu sei que amanhã vai embora e eu ficarei pra trás

 

“Não diz nada", eu digo mesmo assim

"Se contenha" e eu já não caibo em mim

Eu jurei, eu sei, perfeitamente o que é o mal que me faço 

E faço até o fim

 

Eu que tô sem chão no alto da gangorra

Eu jurei, mas sei que já não juro nada

Eu já não tenho quem me socorra

Já não é minha minha palavra

Eu me rendo outra vez e o declaro

Outra vez você me amou por um segundo

Agora o céu vai ficando claro

Você me esquece e eu me afundo

8. PERFEITAMENTE

voz | Regina Machado

violão de aço | Norberto Vinhas

arranjo | Norberto Vinhas

Dante Ozzetti é um violonista que possui uma linguagem autoral singular e que vem de uma família que transborda música. Não bastasse isso é um cara divertido que me apresentou uma nota fiscal pelo serviço de reconhecimento de firma de sua assinatura para autorização referente à gravação de “Os Passionais”. O valor era de R$ 8.000,00 (oito mil reais...)

Também tendo sido o “boy” o próprio Dante, nada mais justo...

Concordei com o valor e...não paguei... claro!

9. OS PASSIONAIS

Dante Ozzetti | Luiz Tatit

Já passamos muitas aflições

Também jogamos tudo ou nada e não foi bom

Já nos despedimos, mas depois só sentimos pena de nós dois

Que somos assim, sabemos já de cór

Lamentamos muito por não ter realizado algo maior

Ou bem melhor

Um voltar por outro quase todo mês

O que é que faz a gente fazer o que fez?

Ambos atordoados com a estupidez

Eu, você na vida juntos outra vez

Mas não dói, não

 

Só vim para dar parabéns, sim

Parabéns para nós, os passionais

Parabéns para nós e aos demais

Que também como nós se vão, voltam atrás

Que assim como nós não têm paz

Parabéns para nós, irracionais

Parabéns para nós, sem rivais

Parabéns para nós, parceiros infernais

voz | Regina Machado

violão de 7 cordas | Ítalo Perón

violão de aço | Norberto Vinhas

arranjo | Ítalo Perón e Norberto Vinhas

 
 
2. COSTUME

Chico Saraiva | Celso Viáfora

Se o sofrimento rasga por dentro tudo é saber deixar o coração doer

Depois se acostumar

Se der saudade da felicidade basta fingir trocar a dor pelo prazer

Depois se acostumar

Quem vive sofrendo, um dia se acostuma

Quem vive chorando, um dia se acostuma

Quem vive perdendo, um dia se acostuma

Ah, meu amor, se for pra acostumar,

Prende a tristeza no pé da mesa e vamos nos amar

Pra se desconhecer

Depois se acostumar

voz, vocais e percussão vocal | Regina Machado

violão de 7 cordas e arranjo | Ítalo Perón

violão de aço | Norberto Vinhas

3. OLHOS EM CHAMAS

Fred Martins | Manoel Gomes

Quem com medo fere,

Ferido será num susto

Se o nervo é exposto,

Não dá pra mudar de assunto

Quando o fraco cai,

O forte se levanta

Quem sabe bater à porta não destrói a tranca?

Este seu olhar degenera meu tom

Meu salto faz estrago n'alma feito radiação, cobalto

Quando canto fico alto sem medo do tombo,

Sem medo do rombo, de papo furado.

Por que cargas d'água tu vens e não dá meu sono?

Olhos lançam chamas, eu me molho não sei como.

Se a tensão desperta e a inspiração sorri,

A felicidade dorme de lingerie.

voz | Regina Machado

violão de 7 cordas | Ítalo Perón

guitarra | Norberto Vinhas

arranjo | Ítalo Perón e Norberto Vinhas

Chico Saraiva

 

Primeiro, meu colega de Unicamp, onde nos conhecemos como alunos da graduação em música. Depois nossa amizade se consolidou. 

 “Incerteza”, parceria com Luiz Tatit, eu já conhecia do segundo cd do Chico, quando foi cantada por Simone Guimarães. Mas, depois de incluí-la no meu repertório de show, o caminho natural foi levá-la para o cd. Linda e profunda!

“Costume” chegou num cd com novas composições que o Chico trouxe pra eu ouvir. Parceria com Celso Viáfora, compositor cujas canções namoro de longe desde o final dos anos 1980 quando participei de um projeto idealizado e dirigido por Fauzi Arap no Teatro de Arena Eugenio Kusnet.

Foi nessa leva de novas composições também, que Chico me mostrou “Anágua”, parceria com o grande Makely Ka, foi paixão à primeira escuta...Aquela aguaceira toda tinha tudo a ver comigo...! 

Regina Machado e Fred Martins, O samba me diz

Conheci o Fred através do nosso amigo comum Moisés Santana. De cara adorei suas composições, seu canto, sua performance.

Quando quis incluir algumas de suas canções em meu repertório, a primeira que ele me mandou foi “Perfeitamente”, parceria com Chico Bosco. Mandou por sugestão de Ritamaria, cantora, minha amiga. Rita intuiu que eu gostaria de cantar essa canção, que tinha tudo a ver comigo. Acertou! E foi da letra dessa canção que saiu o título deste cd.

Depois Fred mandou outras. Me apaixonei por “Olhos em Chama”, e “O Samba me Diz”, que se tornou a canção de abertura do disco.

1. O SAMBA ME DIZ

Fred Martins | Marcelo Diniz

Pode amanhecer o que doeu assim

Já desabrochou com o que eu chorei de mim

Pode o dia vir me despertar

O que ontem era dor, é flor no meu jardim

Podem espalhar que eu não sei o que fiz,

Podem até zombar de cada cicatriz,

Apontar a minha insensatez,

Mas não venham dizer que eu nunca fui feliz.

Pode ser que até digam que eu não soube amar

Mas, do amor, quem só espera sua dor o saberá

O amargo sabor já se foi

Hoje eu canto o que o samba me diz

Não é feliz quem maldiz o amor

voz | Regina Machado

violão de 7 cordas e arranjo | Ítalo Perón

violão de aço | Norberto Vinhas

 
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